“No carnaval de 2003, me dei conta que eu ouvia um zumbido. Quando tudo ao meu redor ficava silencioso, de dia ou à noite, eu ouvia um “apitinho” no meu ouvido direito. Fui a um otorrinolaringologista, muito bem recomendado, que me pediu um monte de exames e, depois de ver que nada foi diagnosticado, informou que eu era um mistério da ciência. Eu me senti uma alienígena! Eu, uma pessoa normal, de boa saúde física e mental, como poderia ter algo incurável? Quanto mais preocupada eu ficava, mais alto eu ouvia o barulho na consulta. Foi então que o médico me deu um remédio de tarja preta, o que me deixou apavorada. Eu demorei para ter coragem de tomá-lo e por isso fiquei vivendo entre dois limites muito ruins: o medo de ficar dependente do remédio e o de continuar suportando o barulho. Foram tempos difíceis. Enfim, comecei a tomar o remédio, o barulho diminuiu um pouco, mas eu não estava tranqüila.
Fui ao 2º médico, que nada além daquilo poderia ser feito, que o zumbido é de causa desconhecida, uma disfunção do sistema límbico, sugerindo que poderia me confortar de entender um pouco sobre o assunto.
Descobri então o mundo da internet, que mais parece um purgatório. Os depoimentos, fóruns de discussão, o número de pessoas desesperadas e de informações desencontradas e absurdas era impressionante. Neste momento, o barulho era muito alto, desconcertante. Eu ouvia o dia todo e à noite era difícil dormir porque o barulho irritava, angustiava… A sensação de não ter controle nenhum sobre ele e de não saber o limite disso, imaginar a minha vida toda com esse barulho, a dependência do remédio, como seria quando eu quisesse engravidar… imaginava que não seria capaz de viver assim. Cheguei ao absurdo de pensar que era melhor ser surda!!!
A minha instabilidade era tão grande que eu chorava a qualquer momento. Chorava de medo de ficar maluca (como meu padrasto, que sofria há anos por causa de um barulho também, que o deixou mais doente e maluco do que sempre foi…), medo de que isso destruísse o meu casamento e minha vida profissional. Eu, que sempre sobrevivi a todos os problemas, não conseguiria sobreviver a isso também?
Como o remédio não surtia efeito, parti para caminhos alternativos. Comecei a acupuntura e a terapia, que me ajudaram muito. Ao mesmo tempo, procurei uma terceira otorrino, uma das poucas indicações saudáveis que eu encontrei na internet.
Embora ela não tenha me dado garantia nenhuma de que o barulho iria embora, me mostrou uma outra forma de encarar o assunto. Constatamos que o que realmente me atrapalhava naquele momento era a dificuldade de dormir. Assim, continuei tomando o remédio para dormir, fiz uma dieta experimental e comecei a tratar o assunto com mais serenidade. Finalmente me convenci que eu não ficaria maluca – não por causa disso!
Então tudo começou a mudar. Há mais de um ano, o barulho foi diminuindo cada vez mais e mais… e finalmente chegou a se tornar imperceptível, de eu ter que prestar muita atenção para ouvi-lo. E muitas vezes eu não o encontrei! Às vezes ele ainda volta um pouco, mas já faz um bom tempo ele não é mais um problema para mim. Sob orientação, finalmente consegui parar o remédio para dormir.
Pode ser que o zumbido não tenha um tratamento do tipo que se toma um comprimido e pronto, mas com certeza tem tratamento. Tive que mudar absolutamente a forma de encarar a questão: acreditar que não é uma doença, que os maus exemplos não são parâmetro, pois não necessariamente eu teria o mesmo destino que eles, não encarar o barulho como se fosse um terremoto, mas sim, ouvi-lo e deixá-lo passar sem prendê-lo na minha atenção… Essa foi “a” diferença.
Lembrando de tudo que eu passei por causa do zumbido, é inacreditável que nesse espaço de tempo, tudo tenha mudando tanto. Fico feliz por ter tido a sorte de ter encontrado boas pessoas que me ajudaram, por eu ter tido disposição para mudar a forma de ver as coisas e mais feliz ainda pelo resultado. O barulho é meu ex-problema e agora que eu já sei o caminho, não permitirei que ele venha a me incomodar nunca mais”.