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Congresso na Alemanha – Post 3/3

Congresso na Alemanha – Post 3/3

Hoje vamos fechar a série de posts falando de mais um trabalho que levamos sobre Misofonia para o congresso de zumbido na Alemanha, pois zumbido e misofonia têm muita relação!

A Misofonia, ou Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons, é uma aversão a sons bastante seletivos, que geralmente são baixos, mas repetitivos. Ela costuma provocar  uma reação emocional forte, súbita, incontrolável e desproporcional nas pessoas expostas a tais sons. Um desses sons é o de pessoas mastigando comida, especialmente alimentos crocantes, como a maçã.

Tanto a misofonia como o zumbido podem ocorrer pela hiperconectividade entre a via auditiva, o sistema límbico (área das emoções) e o córtex pré-frontal (área da atenção). Já se sabe que pessoas incomodadas com zumbido podem ter prejuízo da atenção seletiva, mas isso ainda não tinha sido demonstrado na misofonia.

O teste de Identificação de Sentenças Dicóticas (DSI) é um dos instrumentos usados para testar a atenção seletiva. Ele é dividido em 6 bandas, incluindo a avaliação da integração binaural e da atenção direcionada à orelha direita ou esquerda.

Vocês verão agora os principais resultados da tese de mestrado da minha ex-aluna, a Fúlvia, que foram apresentados no congresso da Alemanha, com o título: Avaliação da Atenção Seletiva em Pacientes com Misofonia.

 

A amostra de participantes foi dividida em 3 grupos:

– Grupo Misofonia (GM, n=10);

– Grupo Controle Zumbido (GCZ, n=10);

– Grupo Controle Assintomático (GCA, n=20).

 

Os critérios de seleção foram: audiometria normal bilateral e nota de incômodo ≥ 6 com o sintoma (zumbido ou misofonia, dependendo do grupo).

Agora, ATENÇÃO! Em cada um dos grupos acima, o DSI foi aplicado em:

– 3 situações: versão padrão; versão com adição de som de mastigação de maçã (incômodo comum na misofonia); versão com adição de chiado white noise (incômodo comum no zumbido)

– 4 estágios: integração binaural e atenção direcionada, cada um aplicado na orelha D e E.

 

Olhem só as respostas corretas de cada grupo em cada situação: as pessoas com misofonia tiveram queda significativa na porcentagem de acertos quando fizeram o teste com a adição do som da mastigação. Isso não ocorreu nas pessoas com zumbido, quando ouviram o teste na versão com adição do chiado.

 

O outro resultado interessante foi que:

– a média de respostas corretas em cada orelha no estágio de atenção direcionada foi maior do que na integração binaural na orelha direita e esquerda (p <0.001) em todos os grupos. Isso pode ter ocorrido pelas alterações no padrão da atenção e/ou memória de trabalho.

– a média de respostas corretas foi maior na orelha direita do que na esquerda (p <0.001) em todos os estágios e em todos os grupos. Sabe-se que, durante a apresentação dicótica da fala, os sinais direcionados ao hemisfério cerebral não dominante são parcialmente degradados pelos circuitos do hemisfério dominante, confirmando a existência de diferenças hemisféricas.

 

Uma observação surpreendente durante a aplicação do teste DSI com adição de som da mastigação, foi a de que alguns participantes do GM referiram taquicardia, sudorese e ansiedade logo no início do teste, mas foram se adaptando aos poucos. Segundo eles, se os sons desconfortáveis da mastigação não fossem produzidos pelo computador, mas sim por pessoas na vida real, teria sido mais difícil ou até impossível completar os testes.

Deu para imaginar melhor como pode ser a vida de alguém com misofonia, que se incomoda e chega a passar mal durante a escuta de determinados sons, que não tem apoio da família nem dos amigos e ainda tem a sua atenção seletiva diminuída durante a presença desses sons?

Para mais informações, acesse www.institutoganzsanchez.com.br/limiar-de-desconforto-a-sons.

Está no forno um curso online sobre as Hipersensibilidades Auditivas, que incluirá a misofonia, a hiperacusia e a fonofobia. Aguardem!!!

 

Tanit Ganz Sanchez – Professora Associada da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP e Diretora do Instituto Ganz Sanchez, São Paulo, Brasil.

Fulvia Eduarda da Silva – Mestra em Ciências pela USP, São Paulo, Brasil.