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Congresso na Alemanha – Post 2/3

Congresso na Alemanha – Post 2/3

Como explicado no POST 1 dessa série, desde 1995, temos participado de TODOS os congressos internacionais direcionados ao avanço do zumbido.  Se você não leu,  é rapidinho… volta lá para ler!

Alguns desses eventos incluem tópicos como misofonia e hiperacusia. Hoje falaremos de um dos trabalhos que levamos sobre Misofonia para este mesmo congresso.

A Misofonia, ou Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons, é caracterizada pela aversão a sons bem específicos, que geralmente já são baixos, mas são repetitivos. Ela costuma provocar  uma reação emocional forte, súbita, incontrolável e desproporcional nas pessoas expostas a tais sons.

Ocasionalmente, um paciente com misofonia refere que alguém de sua família também tem o mesmo problema.  relatamos um caso interessantíssimo de uma família com 15 membros com misofonia.

Durante uma consulta médica rotineira, uma paciente minha com misofonia contou que as 3 irmãs dela também tinham os mesmos sintomas. Elas foram contactadas por telefone e concordaram em responder um questionário. Para nossa surpresa, quando perguntadas se alguém mais da família tinha incômodo com sons, elas indicaram outros familiares que também foram contactados. No total, foram contactados 15 membros de 3 gerações dessa família com diagnóstico clínico de misofonia (veja a árvore genealógica deles). Destes, 12 responderam o questionário com os dados que mostraremos a seguir.

Achei interessantíssimo, por isso eu e minha ex-aluna que terminou o mestrado em Ciências pela USP, a Fúlvia, apresentamos alguns dados sobre essa família no congresso de Zumbido da Alemanha, na forma do poster:  Misofonia Familiar ou Síndrome da Sensibilidade Seletiva a Sons: evidência de herança autossômica dominante?

 

Vejam abaixo as principais mensagens, junto com alguns comentários e figuras.

Dados epidemiológicos dos 15 familiares: Idade: 9 a 73 anos (média 38.3; mediana 41 anos); Sexo: 10 (66.6%) mulheres; Raça: 100% caucasianos.

Árvore genealógica da família:

Idade de aparecimento da Misofonia e tempo de duração até o presente: exceto a matriarca, todos os outros iniciaram os sintomas na infância ou na adolescência e todos eles continuam com os sintomas. Isso é algo para prestarmos muita atenção!!!

Todos os sons que foram apontados pela família como desencadeadores da Misofonia em ordem decrescente: mascar chiclete, mastigação, soar o nariz, roncos, papel (de bala ou de pipoca), assobio, estalar lábios, gelo no copo, escovação, respiração, digitação, latidos, clique de caneta, mastigar maçã, deglutição, tosse, vozes altas, molho de chaves, giz na lousa, cortar comida (talheres), tamborilar dedos, tomar sopa.

Notas de incômodo numa Escala Analõgica Visual variando de 0 (nenhum incômodo) a 10 (maximo incômodo): todos escolheram entre 5 e 10, ou seja, incômodo moderado a severo.

Outros sintomas associados que as pessoas com Misofonia apresentaram, na opinião delas mesmas, em ordem decrescente: ansiedade, zumbido, transtorno obsessivo compulsivo, hiperacusia e perda auditiva.

Por isso, COMO PODEM OS OTORRINOS E OS FONOAUDIÓLOGOS FICAREM DE FORA DO ASSUNTO? Nãããão podeeee! Vamos fazer trabalho de equipe?

A pergunta que não quer calar é: seria essa família um exemplo de hereditariedade ou de influência ambiental?

Sabemos que uma característica fortemente presente numa família pode ser transmitida por vias não genéticas, mas importantes o suficiente para criar um padrão quase infalível de transmissão. O comportamento cultural é um exemplo de característica transmitida sem ser genética. Portanto, de modo semelhante, a misofonia poderia ser “aprendida”pela convivência, principalmente dos filhos com os pais.

Se admitirmos que a misofonia nessa família é genética, a presença de 3 gerações com pessoas portadoras e a transmissão a partir de homens e mulheres afetados são dois indícios fortemente sugestivos de que se trata de herança autossômica dominante.

De qualquer jeito, futuros estudos de história familiar em amostras maiores poderão confirmar o papel dos fatores genéticos na etiologia da misofonia.

Assim, nós concluímos que a etiologia da misofonia pode incluir um “continuum” de possibilidades entre causas ambientais e hereditariedade, mas a herança autossômica dominante deve ser considerada.

Obrigada!

 

Tanit Ganz Sanchez – Professora Associada da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP e Diretora do Instituto Ganz Sanchez, São Paulo, Brasil.

Fulvia Eduarda da Silva – Mestra em Ciências pela USP, São Paulo, Brasil